Meus grandes predecessores, de Gary Kasparov Por Hindemburg Melão Jr.

Hoje não vou falar de um livro, mas sim de uma coleção que, na minha opinião, é a melhor sobre Xadrez nos últimos 100 anos e uma das melhores obras literárias entre todos os gêneros. Não traz inovações revolucionárias, como os trabalhos de Philidor e Steinitz, por isso não daria para comparar com o “Principia”, de Newton, ou o “Diálogos sobre os dois máximos sistemas”, de Galileu, mas reúne a nata da produção enxadrística mundial desde seus primórdios até o final do século XX, abrilhantada com os incomparáveis comentários do Kasparov e a excelente tradução do Vescovi. Um dos grandes problemas de livros em português é que as traduções frequentemente são péssimas. “Uma breve história do tempo”, do Hawking, por exemplo, numa leitura rápida, em 1989, encontrei mais de 200 erros, a grande maioria dos quais devidos à má tradução e à ausência de uma revisão técnica. O excelente seriado “Cosmos” contou com um investimento substancial na produção, enquanto no brasil não investiram sequer numa tradução decente. Na versão em português de “Cosmos” dizem que Fourier e Ramanujan foram médicos (traduziriam “physicist” como “médico”), em parte por culpa de Sagan, porque, a meu ver, ambos foram principalmente matemáticos. De qualquer modo, contratar um tradutor que confunda physician com physicist, e não entenda sequer o contexto para deduzir que a tradução correta não poderia ser aquela, é deplorável. Nesse cenário vergonhoso de traduções horríveis, “Meus grandes predecessores” se distingue nitidamente, com uma tradução primorosa em todos os pormenores. Além de escrever muito bem e jogar ainda melhor, Vescovi mostrou-se muito cuidadoso e fez uma tradução no nível que esta obra merecia, bem como adicionou alguns breves comentários que a enriquecem ainda mais. Kasparov fez uma meticulosa seleção das melhores partidas dos melhores jogadores desde Greco até Karpov. Faz uma apresentação razoavelmente extensa e detalhada sobre a vida de cada jogador e o contexto histórico em que viveu e evoluiu, com uma riqueza de detalhes que só poderia vir de alguém que tenha convivido de perto com cada um deles, que acompanhou o que se passava nos bastidores e que foi ele próprio um dos protagonistas que ajudou a construir a história do Xadrez. A polêmica sobre Alekhine ter se recusado a jogar um match revanche contra Capablanca, por exemplo, é analisada com profundidade e imparcialidade. Os boicotes que a KGB teria praticado contra Korchnoi em seu match contra Karpov é esmiuçado com detalhes. Diversos outros episódios interessantes e importantes da história do Xadrez são analisados de maneira objetiva, sintética e impessoal, ou pelo menos esta foi minha impressão. Kasparov sempre foi um rival político de Karpov, além de um rival no tabuleiro, mas não me pareceu que em qualquer momento ele tenha permitido que isso influenciasse suas opiniões e análises expostas no volume que fala sobre Karpov. Além de uma introdução a cada jogador, Kasparov também faz algumas introduções mais breves às partidas, mas o maior diferencial desta obra, a meu ver, está na qualidade das análises. Como já existiam bons programas, Kasparov os utiliza para revisar a parte tática e fundamenta seus comentários com variantes concretas muito acuradas para os padrões da época. Claro que com as engines atuais de 3600 se pode encontrar vários erros nas análises feitas com engines de 2800 da época, mas os aspectos conceituais das análises são valiosíssimos e pode-se aprender muito, muito, muito mesmo. Inclusive porque, como ele começa analisando partidas mais antigas, os erros cometidos eram similares aos de jogadores menos experientes de hoje, portanto ao longo da obra se vai aprendendo como explorar os erros típicos em diferentes níveis de jogo, desde cerca de 1800 de rating até 2800. O primeiro volume foi publicado em 2003 e o último em 2006, portanto foi um trabalho realizado ao longo de quase 4 anos, por um dos maiores jogadores de todos os tempos. Além disso, a tradução foi feita pelo brasileiro com maior rating histórico (2660), o GM Giovanni Portilho Vescovi, heptacampeão brasileiro, vice-campeão mundial mirim, e detentor de muitos outros títulos. O tempo investido e a qualidade técnica do autor e do tradutor já dizem muito sobre o resultado. Novamente não é um livro para iniciantes, é recomendável estudar os outros citados no início, antes de ler este. E logo que já se tenha a bagagem necessária para compreender bem o conteúdo, é uma “leitura” indispensável. Coloquei “leitura” entre aspas porque obviamente não se lê livros de Xadrez. Estuda-se-os, analisando todas as partidas sobre o tabuleiro, lance a lance, variante a variante, preferencialmente tentando encontrar os melhores lances antes de ver os que foram jogados. Antes de finalizar, eu não poderia deixar de agradecer ao amigo Ednilson Oliveira, que em 2014 me presenteou com os 5 volumes dessa fantástica coleção.