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20 de fev. de 2026

A ilusão das profissões mais rentáveis

Por Hindemburg Melão Jr.


Esse artigo se divide em duas partes:

1. Um choque de realidade sobre a inexistência de Educação e de produção científica no Brasil, sem a conversa fiada de “falta de verba” ou “baixos salários”.

2. A melhor orientação profissional que você pode receber na vida, com profundidade, sabedoria, transparência, sem retórica vazia que você encontra por aí.


Há algumas semanas, o Luis me recomendou ler algumas postagens do Anderson Correia, ex-reitor do ITA e classificado pelo LinkedIn como principal influenciador do Brasil em Educação. São postagens de bom nível e tive vontade de comentar quase todas, mas não posso direcionar tempo a isso. Entretanto, nesse caso achei necessário, porque se está criando uma ilusão muito destoante da realidade.


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Em linhas gerais, concordo com praticamente todas as teses do Anderson sobre estimular as pessoas a estudar – sobretudo estudar Engenharia –, sobre a importância da Educação, a importância da Matemática e outros posicionamentos dele. Porém discordo de vários detalhes nos argumentos que ele utiliza para sustentar suas teses.


Antes de analisar esse caso específico, gostaria de apontar dois casos nos quais discordo dele em postagens anteriores:


1. Não há motivo para se orgulhar da Educação no Brasil. É quase exatamente o contrário.

2. Praticamente não existe produção científica original de alto nível no Brasil. Há raríssimas contribuições incrementais, mas nada revolucionário. No vídeo que analiso o caso de César Lattes, isso fica muito claro.


Ao ler um livro sobre História da Ciência, qualquer livro bom sobre esse tema, encontramos uma aventura fascinante de invenções, descobertas, ideias brilhantes, ao mesmo tempo simples e extraordinárias, com Eratóstenes calculando o tamanho da Terra, Hiparco calculando a distância da Lua, Leonardo renunciando à imitação dos pássaros e se antecipando a Bernoulli sobre os princípios da aerodinâmica, Newton associando a queda contínua da Lua com as quedas de objetos próximos à superfície, Poincaré deduzindo os princípios da Relatividade, Lemaître mostrando que o Universo está em expansão com base em dados empíricos e um modelo teórico baseado na Relatividade Geral. Conhecer explicação sobre como cada grande cientista compreendeu algo que expandiu os horizontes do conhecimento é tão ou mais prazeroso do que ouvir as melhores composições de Mozart, Beethoven.


É assim na Grécia Antiga, no Mundo Árabe medieval, na Itália, na Holanda, na França, na Alemanha, na Inglaterra, nos EUA, na União Soviética, na China, no Japão, na Índia. Porém quando lemos ou assistimos a algo sobre “ciência no Brasil”, é uma completa vergonha. A honesta sequência de vídeos de Antonio Augusto Passos Videira sobre história da Física no Brasil nem sequer se parece com algo que possa ser chamado “história da ciência”, porque ele não cita 1 inovação relevante sequer, desde os primórdios até os dias atuais, há 0 inovações de alto nível. O que chamam “história da ciência” fica muito nítido nesse vídeo: é uma sucessão de disputas políticas por verba para construção de prédios e compra de equipamentos, como se isso fosse Ciência. O máximo que se faz é um trabalho técnico, não científico, de reproduzir e aplicar as invenções de outras pessoas. E o mais grave é que os brasileiros não percebem a diferença entre isso e a produção científica de verdade.


Na época da pandemia, eram frequentes as notícias sobre laboratórios produzindo vacinas industrialmente – vacinas de qualidade duvidosa, diga-se de passagem – como se aquilo fosse fazer ciência. Aquilo é, na verdade, receita de bolo. Fazer Ciência é quando se desenvolve uma estratégia inédita para resolver um certo problema não-trivial. A simples repetição mecânica é um trabalho técnico. E só isso é o que se faz no Brasil, com o rótulo incorreto de “ciência”. Produzir Ciência é elevar o nível de compreensão do mundo a um patamar um pouco acima do que estava. Não precisa ser algo tão revolucionário quanto as ideias de Einstein ou Newton, mas no mínimo precisa trazer uma inovação real, resolver algo que não tinha solução, ou que era resolvido incorretamente, ou aprimorar algo que era resolvido de forma subótima. Quando Ptolomeu aprimorou o modelo de Eudoxo, embora o modelo fosse estruturalmente errado, aquilo era ciência de alto nível, porque permitia fazer previsões mais acuradas. Quando Copérnico propôs seu modelo heliocêntrico, ele simplificou os cálculos mantendo boa acurácia. Quando Kepler propôs suas 3 Leis, ele deu um salto em acurácia e conceitual.


Quando procuramos algo semelhante no Brasil, praticamente não existe, com raríssimas exceções. Quando Carlos Chagas descreveu o ciclo completo da doença de Chagas, embora não haja inovação e use exclusivamente métodos já consagrados, ele adota um procedimento que era comum na Filosofia (Quia x Propter Quid), mas inédito na Medicina. Geralmente, um médico encontra uma doença, depois o patógeno e, por fim, o vetor. Chagas fez o caminho contrário. Tomás de Aquino já usava isso no século XIII, portanto não é novidade. Mas pode-se considerar que a aplicação disso à Medicina seja, de certo modo, uma inovação. Santos-Dumont foi outro exemplo importante, entre os 10-15 pioneiros na construção de aeronaves mais densas que o ar e utilização de dispositivos relevantes como ailerons. Mário Schoenberg, José Leite Lopes, Almir Caldeira fizeram algumas contribuições, mas de impacto moderado em escala mundial. Schoenberg foi precedido por Chandrasekhar em mais de 10 anos, além de a obra de Chandrasekhar ser mais completa e acurada. Leite Lopes fez especulações interessantes, mas não chegou a nada conclusivo como Weinberg e Salam fizeram. Almir Caldeira recebeu de presente de seu orientador Anthony Leggett a ideia pronta sobre o que deveria fazer, e seguiu a linha de pesquisa sugerida, fazendo a parte operacional. Estes são alguns dos casos sérios mais expressivos no Brasil, que não chegam perto de 1% do que é produzido em apenas uma das universidades de ponta dos EUA.


Até os anos 1980, usava-se o termo mais realista “países subdesenvolvidos”. Depois começaram a usar eufemismos como “em desenvolvimento”, para mascarar a triste realidade. Os anos 1990 em diante foram marcados pelo uso de eufemismos de todo o tipo, para disfarçar defeitos, fazendo parecer menores do que são, como se essa mudança de nomenclatura atenuasse a gravidade dos problemas.


A série de vídeos nos quais Antonio Videira fala sobre “história da física no Brasil” deixa transparecer nitidamente essa situação constrangedora. Em quase 10 h de vídeo, nenhuma descoberta relevante é apresentada e analisada. É uma simples sucessão de disputas entre físicos e biomédicos para ver quem consegue extrair mais verba do governo. A ilusão de que “construir prédios” e “comprar equipamentos” tem alguma relação com “produzir ciência” é uma das mais ingênuas e mais distantes da realidade, tão ingênua quanto acreditar no velho discurso raso de que não se produz ciência por falta de verba ou baixos salários. Em meu vídeo no qual analiso o caso de César Lattes e porque o Brasil nunca teve um Nobel, fica muito claro quais são os reais motivos.


Enfim, para meus critérios de “alto nível”, praticamente não há produção científica no Brasil, exceto algumas raríssimas exceções.


Mas me parece que essa divergência de opiniões se deve uma diferença na escala de valores e de interpretação do significado de palavras. O que eu considero “produção intelectual de alto nível” é prêmio Abel, medalha Fields, prêmio Nobel em Ciência, prêmio Turing, prêmio Kyoto. O que me parece que ele considera “alto nível” é ser membro da ABC, ser CEO numa grande empresa, receber algum prêmio internacional de segunda ou terceira linha, ou algum prêmio político nacional travestido de científico, porque não há prêmios científicos sérios no Brasil, infelizmente. Todos os prêmios brasileiros que são nominalmente apresentados como “científicos” são na verdade homenagens políticas. Algumas dessas homenagens são concedidas a pesquisadores sérios e competentes, como Newton da Costa, José Leite Lopes, Mário Schoenberg e outros, mas na vasta maioria das vezes são concedidos por motivos políticos. Embora praticamente todos os prêmios internacionais também tenham viés político, o nível de contaminação é ordens de grandeza menor nos prêmios internacionais.


Portanto, uma das divergências é essa: o que eu chamo “alto nível” é diferente do que ele chama “alto nível”. Se essa nomenclatura fosse padronizada, creio que concordaríamos que quase não há produção científica no Brasil. Outro ponto de divergência é que me parece que ele enxerga as instituições de ensino como formadores de empreendedores e executivos de empresas, enquanto eu as enxergo como prioritariamente formadoras de pensadores que expandem os horizontes do conhecimento. Para mim, cursos técnicos formam empreendedores e funcionários (inclusive executivos, consultores), enquanto universidades deveriam formar inovadores que compreendem melhor o mundo, resolvem problemas históricos, inventam, descobrem, criam. Nesse sentido de criatividade e inovação de alto nível, as instituições brasileiras são improdutivas.


Se contabilizar a produção científica de somente 1 entre as várias universidades dos EUA, como Harvard, ela coleciona 166 prêmios Nobel, enquanto todas as instituições de ensino do Brasil somadas colecionam 0. É uma situação absolutamente vergonhosa, e mais trágico ainda se tal condição não causa vergonha a muitas pessoas, porque indica comodismo em permanecer no fundo do poço, e empenho em fazer parecer que o fundo do poço não é tão ruim, em vez admitir a realidade e tentar sair do fundo do poço.


A situação do Brasil na Educação e na Ciência se parece muito com a situação da Argentina durante a guerra das Malvinas. Enquanto a Argentina estava apanhando todos os dias, as mídias espalhavam notícias animadoras, como se a Argentina estivesse vencendo, fazendo o povo acreditar que estava tudo bem. Até que, finalmente, houve a rendição inevitável e previsível. A Educação e a Ciência no Brasil já estão em ruínas há muito tempo, aliás, já começaram mal, mas alguns grupos tentam disfarçar essa condição degradante, com discursos motivacionais do tipo coaching, como se isso mudasse a triste realidade em que vivemos.


Quando Einsten esteve no Brasil, fez comentários que ninguém quis divulgar até décadas depois. Quando Feynman esteve no Brasil, como fez pronunciamentos públicos, não conseguiram esconder nem maquiar, tal como haviam feito com as declarações de Einstein, mas não tomaram nenhuma providência em relação às críticas que ele fez. Tudo ficou igual ou até piorou. Essa é a realidade, e tudo caminha para um colapso. Fingir que existe Educação e Ciência no Brasil é como tentar tapar o Sol com uma peneira rasgada. O que existe no Brasil é um processo de adestramento em vez de Educação, e existem cursos para formação de técnicos em vez de cientistas. O que salva é que muitos dos principais talentos do Brasil vão estudar em Berkeley, MIT, Princeton, Oxford, Cambridge, etc., mas a maioria deles não retorna ao Brasil, por várias razões, as quais eu também comento em dois vídeos: sobre Cesar Lattes e sobre o IMPA tech.


A conversa fiada de sempre, alegando falta de verba ou baixos salários, também é analisada de forma racional e franca no vídeo sobre o Lattes, expondo mais algumas verdades indesejáveis para muitos, mas necessárias para todos.


O primeiro passo para sair do fundo do poço é reconhecer que se está no fundo do poço. Caso contrário, não há como desenvolver um plano para consertar a situação se nem sequer se consegue enxergar a real situação. O otimismo é importante, mas dentro de perspectivas realistas. O otimismo onírico apenas atrapalha e agrava a situação. Se a pessoa está com câncer e finge que não está, é muito improvável que esse otimismo resulte em remissão espontânea. O mais racional e eficaz é reconhecer a presença da doença e seguir tratamentos testados e validados. Observa-se remissão espontânea em apenas 1 em cada 20.000 casos, mas cerca de 18.000 em cada 20.000 são bem sucedidos com tratamento adequado. A escolha pelo caminho da remissão espontânea é praticamente um suicídio, e é isso que o Brasil tem feito com a Educação e a Ciência. Um suicídio por camuflar a doença, que continua progredindo.

A principal diferença em relação à analogia com o câncer é que no caso da Educação não existe uma cartilha ensinando quais são os tratamentos adequados. Esse é o ponto mais importante que analiso no vídeo sobre Cesar Lattes.


Enfim, esses primeiros parágrafos foram para responder, de forma genérica, a algumas das opiniões apresentadas por Anderson Correia em suas postagens, que são sempre informativas e abordam temas importantes, mas precisam de um aprofundamento e um toque de realismo em pontos fundamentais.


Agora vamos tratar dessa última postagem, na qual ele incentiva as pessoas a estudar Engenharia, mediante a exposição de salários de CEOs de grandes empresas, 70% dos quais são engenheiros. Ele não diz explicitamente “estude Engenharia para ganhar mais”, mas é essa mensagem aproximada que está implícita. E eu concordo, com algumas ressalvas importantes.


Em primeiro lugar, praticamente todos esses CEOs cumprem os seguintes quesitos:


100% deles têm QI acima de 135.

De acordo com Gemini, 100% deles têm conexão de parentesco ou amizade com proprietário ou sócio. Não conferi detalhadamente um por um, mas aparentemente a informação é correta.


Por exemplo:


• Jorge Fontoura Pinheiro Koren de Lima é filho do fundador.


• Milton Maluhy Filho vem de uma família de empresários estreitamente ligada à família Moreira Sales há décadas.


• Gilberto Tomazoni entrou no lugar de Joesley e Wesley Batista, que são filhos do fundador e causaram desastres, mostrando que prioritariamente são contratados parentes/amigos, e só mediante calamidade é que decidem procurar excelência profissional.


• Walter Schalka e Eduardo Bartolomeo vêm de famílias tradicionais que os conectaram a várias outras grandes empresas.


• Nelson Gomes é amigo pessoal (dizem ser o “braço direito”) de Rubens Ometto.


• Bruno Lasansky faz parte de uma estratégia sucessória complexa. Se ele fosse médico ou agricultor, não teria feito diferença na escolha.


• Roberto Monteiro é amigo pessoal é amigo íntimo de Nelson Tanure (o investidor principal = controlador da companhia) e, especialmente, de Nelson Queiroz Tanure (filho).


Portanto, é verdade que 70% são engenheiros, mas isso tem pouco a ver com as contratações para cargos multimilionários. Os dois critérios principais são: estão muito próximos dos proprietários, por parentesco ou amizade, e são inteligentes. Alguns são médicos, outros engenheiros, outros administradores, mas todos são inteligentes (QI>135), ou seja, tanto faz ser engenheiro, o que importa é ter ligação pessoal e ser inteligente. Como geralmente as pessoas inteligentes se interessam por Engenharia, isso acaba produzindo algumas correlações espúrias.


Como funcionam os processos que determinam os CEOs nessas empresas? Basicamente quem contrata e toma decisões olha em volta, entre familiares mais próximos, se há alguém suficientemente inteligente. Não precisam ter sido formalmente examinados por um teste de QI para saber que estão no nível de percentil 99% ou similar. Há vários critérios subjetivos e objetivos que possibilitam estimar isso com boa segurança. Uma pessoa que tenha melhores notas de Matemática e/ou Física em 70% dos semestres em salas de aula com 50 alunos, geralmente estão no percentil 99%, que corresponde a 137 de QI (sd=16). Pessoas aprovadas em vestibulares com 50 candidatos por vaga geralmente estão no percentil 98%. Pessoas com escore acima de 1350 no SAT ou GRE, com correlação 0,86 com QI, geralmente têm QI acima de 135. Além do critério genético: filhos de grandes gestores com QI 150 geralmente têm mais de 130 de QI, especialmente se o cônjuge também tiver elevado QI. Portanto, embora eles não pensem explicitamente em termos de QI nem em números, o que eles fazem é basicamente procurar parentes próximos com QI acima de 130-135. Quando encontram, a maioria desses parentes é engenheiro ou médico.


Portanto, não são escolhidos por serem engenheiros ou médicos. São escolhidos por terem alto QI. Os vestibulares de Medicina são os mais concorridos em termos de candidatos por vaga, embora alguns vestibulares de Engenharia sejam mais difíceis de aprovação, porque ainda que haja menos candidatos por vaga, esses candidatos passam por uma self-selection e estão bem acima da média da população em geral, como é o caso do ITA. Esse fenômeno é bastante nítido na Fuvest 2004, por exemplo, que tinha 78 candidatas por vaga na polícia militar feminina e 35 em Medicina, porém a nota de corte em Medicina era muito mais alta, porque o nível médio dos candidatos era mais alto.


Portanto, embora no ITA possa haver menos candidatos por vaga do que em outros vestibulares, há uma seleção natural que faz a grande maioria desistir sem tentar, e aqueles que chegam a tentar já constituem uma elite, de modo que os aprovados são uma elite dentro de uma elite. Por isso o QI médio no ITA é acima de 140, ainda que o número de candidatos por vaga seja correspondente a percentil 90% a 95% (QI 120 a 125).


Quando os proprietários ou controladores das grandes corporações não encontram, entre os parentes próximos, alguém que atenda a esses quesitos, buscam em sua rede de amizades, e assim sucessivamente, priorizando a proximidade relacional, como primeiro critério, e estabelecendo um corte mínimo de habilidade intelectual como critério complementar. Se a pessoa é pessoalmente e intelectualmente qualificada, isso é o que importa para a escolha. Se a pessoa é médica, engenheira, advogada, psicóloga etc., isso é praticamente irrelevante.


Por isso é errado acreditar em algo como “vou estudar Engenharia porque isso vai me ajudar a conseguir emprego milionário numa grande empresa”.


O certo é pensar “vou estudar Engenharia porque vou aprender a usar ferramentas que me ajudarão a compreender melhor o mundo, resolver problemas e tomar melhores decisões”.


Mas há ainda muitas outras complicações a serem consideradas. A primeira é a autocrítica:

1. Tenho boas conexões?

2. Tenho aptidão para aprender Engenharia?

3. Existe alguma profissão na qual eu poderia me destacar?

4. Em qual profissão eu me sentiria bem e atuaria com amor e prazer?

5. Etc. etc. etc.


O maior tabu das últimas décadas é sobre inteligência. É como se fosse pecado ou crime uma pessoa admitir que é muito inteligente, ou pouco inteligente, ou que existem diferenças de nível intelectual que são determinantes em quase tudo na vida. Finge-se que os motivos são outros, tentando esconder as diferenças intelectuais e desviar o foco para certas profissões, ou instituições.


Claro que a Engenharia também fornece ferramentas úteis que potencializam o uso da inteligência na resolução de problemas diversos. Mas o papel da Engenharia nesse processo é coadjuvante. A conexão familiar é protagonista e a inteligência é deuteragonista. Como Engenharia geralmente está associada com inteligência, ela entra junto na equação como “variável dependente”.


A postagem do Anderson sobre o assunto dá uma abordagem simplista e bastante incorreta a um problema complexo. A verdade é que cerca de 95% da população não conseguiria concluir um curso de Engenharia, e mais de 99% não conseguiria concluir uma graduação no ITA ou IME. Entre esses 1% aprovados e formados, muito menos que 1% tem o nível de competência e a network necessários para chegar a CEO de grandes empresas. No Futebol, mais de 99,99% nunca conseguiria se profissionalizar, mesmo que treinassem 10h por dia, 7 dias por semana. Entre os jogadores profissionais, pouquíssimo chegam a ganhar 1 M por ano. Tanto CEO de grandes empresas quanto top-players de futebol representam uma fração muito pequena da população com aptidões muito raras, combinadas à disciplina, vontade, network e outros atributos. É ilusório achar que estudar Engenharia seja, em geral, melhor do que treinar futebol. Na verdade, estudar Medicina é o que oferece melhor oportunidade real para pessoas aleatórias. Se não forem aleatórias, mas sim parte de grupos específicos, como família de advogados, a preferência muda pela herança de network e ambiente educacional enriquecido dentro de cada área escolhida. Enfim, para Engenharia, pessoas com maior aptidão para Engenharia terão melhores chances de sucesso do que se elas tentarem Futebol ou alguma outra área para a qual possuem menor aptidão. O mesmo vale no caso contrário, de pessoas com aptidão para Futebol, se tentarem Engenharia e, de modo geral vale para qualquer área.


A grande maioria das pessoas tem aptidão média para atividades diversas e não conseguirá renda muito acima da média do país, não importa a escolha que elas façam. Isso é o mundo real. Fora disso, é conversa fiada. As exceções são se houver herança de cargo, de network, de patrimônio.


Não é a escolha por Futebol ou Engenharia que vai determinar quanto a pessoa vai ganhar. É a adequação da aptidão à atividade escolhida, combinada com dedicação e network.


Claro, há mais complicações envolvidas, mas resumidamente é isso. Se o Ronaldo Fenômeno tivesse estudado Engenharia, mesmo se muito esforçando, dificilmente ele ganharia muito mais do que um engenheiro médio (cerca de R$ 10.000,00 mensais), ele não vem de família envolvida com a área, não tem network promissora, não tem talento especial para Engenharia. O Ronaldo talvez conseguisse terminar o curso, por estar no topo 5% mais inteligentes, faz boas poesias, tem opiniões interessantes sobre diferentes assuntos, tem insights filosóficos. Mas a maioria dos outros jogadores de futebol nem sequer conseguiria concluir o curso, aliás nem seriam aprovados no vestibular de Engenharia. E não precisam, porque por terem talento para o Futebol, alguns ficaram milionários nessa modalidade. Há um certo processo de “seleção natural” que conduz as pessoas às atividades que elas fazem melhor, com alguns vieses de família, modismo, status, mas geralmente os mais talentosos acabam escolhendo corretamente a atividade para a qual possuem maior aptidão.


O que pode gerar a sensação de que estudar engenharia é mais vantajoso é por ser menos competitiva do que futebol, no sentido de que existem 1.250.000 engenheiros registrados no CREA/CONFEA, dos quais cerca de 50% ganham acima de R$ 10.000,00 mensais. Entre os futebolistas, há cerca de 90.000 profissionais, dos quais 8% ganham acima de R$ 10.000,00 e certa de 80% ganham 1 salário mínimo.


Ou seja, num país com 220.000.000 de habitantes, é necessário estar no nível de habilidade de 1 em 2.400 no Futebol para conseguir ser profissional e ganhar 1 salário mínimo. Já para ser engenheiro, basta estar no nível de habilidade 1 em 200 para ganhar R$ 10.000 mensais. Portanto, é comparativamente muito mais fácil viver relativamente bem como engenheiro do que como futebolista ou como atleta de qualquer outra modalidade. Em geral, esportes e artes são muito mais competitivos do que profissões mais “convencionais”.


Além disso, o futebolista é uma pessoa que joga Futebol. Na melhor das hipóteses, pode ser também professor de futebol. Enquanto o Engenheiro pode atuar numa larga variedade de atividades que exigem pensar com lógica e resolver problemas. Isso torna o engenheiro um “curinga”, capaz de exercer uma variedade de outras atividades além da Engenharia. Inclusive é comum psicólogos contratarem engenheiros para fazer o tratamento estatístico e outros procedimentos matemáticos de Psicometria, porque, em média, os engenheiros dominam a Psicometria melhor que os psicometristas. Em Economia, os engenheiros lidam com problemas reais melhor que os economistas, em Administração os engenheiros são melhores que os administradores. Basicamente os engenheiros são melhores que a maioria dos especialistas nas próprias áreas que eles são especialistas. Isso ocorre por uma razão simples: o QI médio dos engenheiros é 126, é o QI mais alto entre todas as profissões. Se considerar engenheiros do MIT, da NASA, do CERN, do Fermilab, do ITA, do IME, o QI médio fica entre 140 e 145, que corresponde ao topo 0,5% a 0,1% da população. Por isso são mais habilidosos para resolver problemas em geral, inclusive resolvem problemas fora da área deles melhor do os próprios especialistas nessas áreas.


Além da Engenharia, existem outras atividades “curinga” como Estatística, Física e Matemática, porém a Matemática “desperdiça” muito tempo com formalismo excessivo e questões excessivamente abstratas, enquanto Engenharia trata de problemas práticos do mundo real. Se usar pi=3,14 ou 22/7 ou 355/113 você resolve praticamente qualquer problema do mundo real, exceto para órbitas de satélites de GPS e alguns outros casos muito específicos, que você precisa 9 a 12 decimais. Na Matemática você precisa provar que determinadas séries convergem para pi, o que não tem qualquer utilidade prática. Na Estatística estuda-se problemas reais, mas só a parte probabilística, enquanto Engenharia trata também da parte determinística. Física é a rival mais próxima da Engenharia, mas no Brasil a Física é muito fraca, enquanto a Engenharia está num nível bastante respeitável, embora não seja focada em inovação de alto nível. Quando digo “inovação de alto nível” eu me refiro a trabalhos merecedores de prêmios Nobel, prêmios Turing e similares.


Por esses motivos, estudar Engenharia proporciona uma vantagem competitiva muito grande não só para atuar como engenheiro, mas para atuar em muitas áreas diferentes e também para lidar com os problemas da vida, de modo geral, para tomar melhores decisões em questões complexas, para empreender etc. Entretanto é um erro pensar que “ah, então vou estudar Engenharia”. Para mais de 95% das pessoas, o conteúdo de curso de Engenharia é inacessível. A pessoa pode decorar algumas fórmulas e fingir que está entendendo alguma memorizando e repetindo antes das provas, mas não consegue identificar situações do mundo real nas quais precisa aplicar o que aprendeu, exceto quando se trata de um caso igual ao que foi estudado no curso. Assim como a maioria não consegue se profissionalizar como cantor, pintor, boxeador, futebolista, a maioria também não consegue realmente aprender o que é necessário para ser engenheiro, ou para ser físico, ou matemático, ou desenvolvedor de software. Essa é uma verdade que desagrada muitas pessoas, especialmente nos anos recentes, mas é um fato amplamente verificado empiricamente. É curioso que as pessoas aceitam bem que algumas pessoas são mais altas, outras mais baixas, mas não aceitam que algumas são mais inteligentes, outras menos. E pior ainda aceitar que algumas profissões exigem mais inteligência do que outras e não são acessíveis a mais de 95% da população. Mas os fatos são esses.


Por isso é um ERRO sugerir algo do tipo:


“Estude Engenharia porque engenheiros ganham bem”.


O correto é:


“Identifique para quais atividades você tem habilidade e que se encaixa em sua rede de contatos ou de sua família, avalie quais dessas atividades oferecem melhor remuneração e qual você se sentiria melhor exercendo. Experimente se dedicar a ela por alguns anos e avalie se os resultados estão atendendo às suas expectativas. Se sim, prossiga. Caso contrário, teste a segunda opção, e assim por diante, até encontrar a que funciona melhor para o seu caso. Se necessário, retorne à escolha anterior.”


Ronaldo seria um engenheiro frustrado e mal remunerado, mas foi um futebolista extraordinário e muito bem remunerado, além de fama, prestígio e outros ganhos que não são substituídos por dinheiro. Se dois homens entrassem numa sala cheia de modelos e misses: o Ronaldo e Milton Maluhy, quem você acha que atrairia todas ou quase todas as mulheres? E não apenas isso. Em certa ocasião, dois assaltantes abordaram o Pelé, com a intenção de roubá-lo, mas quando viram que era o Pelé, pediram desculpas, devolveram o dinheiro e pediram autógrafo a ele. Não há dinheiro que compre esse tipo de admiração, respeito, prestígio. O dinheiro é uma variável para medida de sucesso, mas existem muitas outras que precisam ser consideradas em conjunto. O Perelman, por exemplo, recusou o prêmio Clay e a medalha Fields, mas ninguém em sã consciência coloca em dúvida o sucesso dele como no topo mundial. Pode-se contestar as decisões dele, mas não o sucesso dele.


Enfim, a recomendação do Anderson é boa: estude, e se tiver aptidão, considere a possibilidade de estudar Engenharia. Mas seja autocrítico e não se iluda. Um excelente vendedor de sapatos pode ter muito mais sucesso financeiro e maior realização pessoal do que um engenheiro medíocre.


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