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24 de fev. de 2026

Caso Tatiana Sampaio – ficção × realidade

Por Hindemburg Melão Jr.

Desde que tomei conhecimento do caso da Tatiana Sampaio, escrevi este artigo para esclarecer melhor esse caso, porque há muitas distorções. Entretanto, achei melhor não publicar porque mesmo que a pesquisa dela esteja em fase embrionária e sem evidências de eficácia, é um estudo sério, que merece atenção e precisa de apoio, e se eu fizesse um comentário apontando as fragilidades, poderia prejudicar o estudo. Mas agora a situação mudou, porque uma biomédica publicou um artigo criticando a Tatiana de forma que ultrapassa o limite da crítica técnica, por isso achei necessário revisar os dois lados, que é basicamente o que eu já havia escrito, mostrando até que ponto a Tatiana tem méritos reais e em que medida há exageros e distorções.


Antes de tudo, é necessário esclarecer que não se confere prêmio Nobel por pesquisa em fase 3, muito menos em fase 2, muito menos em fase 1, muito menos em fase 0. O trabalho da Tatiana está em fase 0 (pré-clínico) e recentemente obteve permissão da ANVISA para iniciar fase 1.


Desde que dois amigos da Suécia e Noruega (um deles ligado ao comitê do Nobel), em 2024, me recomendaram publicar meu artigo sobre o Melao-index em revista de alto impacto, porque estimam que teria alta probabilidade de ser laureado com um Nobel de Economia, outros amigos se mobilizaram para traduzir e editar meus artigos – que estavam espalhados em sites informais – e submetê-los às principais revistas. Para garantir primazia das descobertas, começaram a ser submetidos a plataformas preprints, como SSRN, PsyArchive, PhilSciArchive, com 11 postados até o momento, e logo em seguida começarão a ser enviados às revistas de maior impacto de cada área, cobrindo não apenas Economia, mas também Psicometria, Fundamentos da Matemática e da Lógica, Física, Astrofísica, Antropometria, Biofísica, o que expande as possibilidades para Nobel de Medicina e prêmios como Abel, Lasker e Lakatos, entre outros. O alvo principal e com maior probabilidade é o Nobel de Economia, já que minhas contribuições nesse campo ultrapassam as de mais de 90% dos laureados com Nobel.


Nesse processo, além de eu revisar os artigos antigos e incluir alguns novos, antes de os meus amigos fazerem as traduções e formatações, também tenho procurado me informar melhor sobre os critérios do comitê, as exigências teóricas, os vieses políticos e comerciais, as consequências de pressões midiáticas e populares, entre outros fatores que influenciam as escolhas do comitê. Por isso o que vou dizer aqui não é opinião de um curioso. É baseado num conhecimento razoável sobre como funciona o processo do Nobel e numa boa compreensão sobre como funciona o mundo, as pessoas, as relações sociais e políticas.


Pois bem, há poucos dias, recebi da Tamara dois vídeos sobre uma pesquisadora brasileira que supostamente teria desenvolvido um tratamento que restabelece a mobilidade em pacientes paraplégicos (grau A na escala ASIA). Um dos vídeos é muito curto, cerca de 30 segundos, o outro tem cerca de 2 minutos. Nas horas e dias seguintes, fui bombardeado com vários vídeos e postagens sobre isso no LinkedIn, principalmente. O caso tem viralizado dentro do Brasil, demonstrando o nível de desinformação, em alguns casos, e desonestidade, em outros casos. O volume de informações falsas sobre esse assunto é alarmante e crescente, tais como: “cientista brasileira faz 6 de 8 paraplégicos voltarem a andar” ou “pesquisadora brasileira pode trazer Nobel ao Brasil” ou “brasileira é a mulher mais influente da América”.


Esse tipo de propaganda distorcida é péssimo sob vários aspectos, inclusive para a reputação dela e para a reputação do Brasil como um todo. Por isso vamos analisar aqui o que é real, o que é ficção, o que é relevante, o que é trivial e o que é extraordinário.


A primeira questão a ser respondida aqui é: Tatiana é uma candidata real ao Nobel de Medicina. A resposta curta é “sim”. Mas esse sim exige muitos esclarecimentos sobre detalhes importantes. O mais exato seria dizer que ela pode vir a se tornar uma candidata se os resultados que ela obteve na evolução A→B na escala ASIA com 10 pacientes na fase 0 (pré-clínica) for corroborada por pesquisadores independentes em amostras randomizadas com centenas ou milhares de pacientes na fases 3 e monitoramento em escala industrial na fase 4. Esse processo pode levar 10 a 20 anos, por isso é um erro grave o carnaval que começaram a fazer. É como se o Rubinho Barrichello estivesse correndo no circuito de Mônaco, com 78 voltas, e terminasse a primeira volta quase empatado com os 5 primeiros, e todos começassem a comemorar como se ele tivesse vencido a corrida. Ou Maguila numa lota contra Hollyfield desse o primeiro soco e atingisse o corpo de Hollyfield, e todos começassem a comemorar como se ele tivesse vencido.


É correto comemorar o bom início, mas é um erro grave comemorar a vitória antes do tempo.


Portanto, o que foi apresentado até o momento indica uma linha de pesquisa séria, sob bons fundamentos biomédicos, com resultados preliminares interessantes. Esses são os fatos. Com isso ela é uma candidata ao Nobel? A resposta é “não”. Se os resultados forem corroborados, ela passa a ser uma candidata? A resposta é possivelmente sim, e uma forte candidata. Além disso, ela é fortíssima candidata a diversos outros prêmios na área de Saúde, além do Nobel, como prêmio Lasker ou Wolf. Se os resultados forem corroborados, não é garantia de prêmio, porque outros pesquisadores em diferentes países também fizeram contribuições importantes e são também concorrentes de peso. Ou seja, depois que os resultados preliminares forem reproduzidos de forma independente e em amostras de tamanho adequado, ela entra para a lista de fortes concorrentes.


Repare num detalhe importante que citei logo no início:


“O mais exato seria dizer que ela pode vir a se tornar uma candidata se os resultados que ela obteve na evolução A→B na escala ASIA com 10 pacientes na fase 0 (pré-clínica) for corroborada por pesquisadores independentes em amostras randomizadas com centenas ou milhares de pacientes na fases 3 e monitoramento em escala industrial na fase 4.”

Esse progresso A→B diz respeito aos 6 pacientes entre 10 que apresentaram alguma melhora mensurável em sensibilidade. Não estou falando do caso A→D, porque este é cientificamente irrelevante. Para a mídia, esse é o que soa como mais espetacular, porque o tetraplégico voltou a andar, mas cientificamente isso não tem qualquer relevância porque está dentro das expectativas para tratamentos convencionais (sem tratamento regenerativo). Vamos compreender isso:


Entre os 10 pacientes, 2 morreram, 2 não saíram de A, 3 passaram de A para B e permaneceram em B, 2 chegaram a C e permaneceram em C, 1 chegou a D. Ou seja, 10% chegou a D. Mas em estudos com pacientes que não receberam qualquer tratamento especial além do tradicional (não regenerativo), 7,2% chegam a D. Isso significa que há 52,1% de probabilidade de que num grupo de 10 pessoas com avaliação A evolua em 12 meses para a avaliação D sem precisar de nenhum tratamento além do convencional. A mídia tem alardeado isso por falta de conhecimento e por explorar falta de conhecimento da população. Esse tipo de resultado, apresentado como espetacular, é tão trivial quanto encontrar pela rua algum adulto com mais de 1,70 m. Ou num grupo de 10 pessoas ter alguém com mais de 1,82 m. Não há nada de extraordinário nisso.


O verdadeiro motivo pelo qual o trabalho da Tatiana se destaca de outras pesquisas é porque entre pessoas do grau A que evoluem para o B, a expectativa é 30,3%, mas o resultado que ela obteve foi 60%. A probabilidade disso é 4,88%, portanto é um caso realmente raro e pode sinalizar um progresso real em comparação com os tratamentos convencionais.


O que significam esses A→B e A→D? No caso específico do estudo da Tatiana, os pacientes que evoluíram de A para B recuperaram sensibilidade nas regiões que haviam sido isoladas por ruptura de canais transmissores de sinais neuroquímicos. Ou seja, não são tetraplégicos que voltaram a andar. São pessoas que haviam deixado de sentir mãos, pés, pernas, e passaram a sentir picada de agulha, toco suave, calor, frio, nessas partes do corpo. Esse é o progresso real que foi obtido pela Tatiana na amostra de 10 pessoas em fase 0. Se isso se confirmar em grupos maiores de pessoas e com avaliações independentes para julgar se houve de fato progresso de A para B, ela se torna candidata séria a prêmios internacionais importantes.


O progresso A→D, embora tenha maior impacto midiático, está dentro das expectativas com base nos tratamentos que já eram adotados. A razão de terem feito uma tempestade em copo d’água é porque, fenomenologicamente, impressiona muito mais um tetraplégico voltar a andar do que um tetraplégico voltar a sentir a presença dos membros. O que não estão considerando é que a proporção em que esse resultado foi obtido está dentro do esperado se comparar com outros casos de tetraplégicos que também voltaram a andar recebendo tratamento convencional. O ponto central é que as pessoas desconhecem que a taxa de paraplégicos que voltam a andar é muito maior do que se imagina.


Vamos entender melhor como isso funciona. Geralmente um estudo em Biomedicina sobre desenvolvimento de medicamento ou tratamento é constituído por 5 fases:

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Vamos analisar um caso específico, como exemplo, para compreender melhor essa dinâmica. Em 1897, Ernest Duchesne descobriu a penicilina. Baseado na teoria de Darwin, ele inferiu que se introduzisse fungos num ecossistema contaminado por bactérias, esses fungos passariam a competir por nutrientes e isso reduziria a população de bactérias. O resultado líquido disso, em escala macroscópica, é que seria uma estratégia para combater infecções. Ele fez experimentos e constatou que isso de fato funcionava, porém seu trabalho não recebeu nenhuma atenção na época. Milhões de pessoas morreram na primeira guerra mundial, além de outras guerras menores, sífilis, febre puerperal, pneumonia e outras doenças, devido à negligência com a descoberta de Duchesne.


Em 1928, Fleming acidentalmente redescobriu a penicilina, num ato imprudente de deixar contaminar uma lâmina e posteriormente observou que a contaminação com fungos havia reduzido a população de bactérias. Diferentemente de Duchesne, que realizou um experimento controlado, com fundamentação teórica robusta e resultado previsível pela teoria, portanto com méritos científicos reais pela ideia, Fleming foi favorecido pela sorte, sem qualquer mérito relevante. De qualquer forma, como ninguém sabia dos trabalhos de Duchesne, Fleming passou a ser considerado o descobridor daquela substância. Ele publicou sua redescoberta (como se fosse descoberta) em 1929.


Com o início da segunda guerra mundial, a necessidade de combater infecções cresceu, e diferentes pesquisadores passam a investigar alternativas para tratar os feridos e reduzir o número de mortes. Boa parte dos pesquisadores tomou como ponto de partida o artigo de Fleming, sendo que Florey e Chain conseguiram sintetizar a substância em 1940. A penicilina começou a ser usada em larga escala, em milhões de pessoas, e salvou milhões de vidas. Em 1945, Fleming, Florey e Chain receberam o Nobel. Duchesne permaneceu esquecido por décadas.


Deixando Duchesne de fora da análise, passaram 18 anos entre a publicação revisada por pares e o Nobel, e o processo foi acelerado pela segunda guerra, caso contrário poderia ter levado mais tempo. Portanto não é um processo simples, nem rápido, nem fácil, e muitas vezes nem justo.


Tatiana já realizou a fase pré-clínica com ratos, camundongos e cachorros, ainda não publicou nenhum estudo revisado por pares. Em muitos casos, isso é irrelevante, quando se trata de uma demonstração matemática ou quando se trata de um experimento baseado em dados públicos. Uma demonstração matemática tem valor em si, desde que esteja correta. Não precisa de que alguém analise e diga que está certo, desde que de fato esteja. O que a revisão por pares faz numa demonstração matemática é permitir que o resto do mundo tome conhecimento do resultado, mas não afeta a validade do resultado em si. Se a demonstração é correta, ninguém precisa validar para que esteja correta, mas precisa validar para que o resto do mundo que não possui a competência necessária para julgar possa confiar que está certo. Essa diferença não é bem compreendia pela maioria dos pesquisadores menos experientes, e pior ainda entre estudantes, que acham que uma revisão por pares é necessária para validar algo. Na verdade, a grande maioria dos artigos revisados por pares contém erros, e alguns erros são graves. De outro lado, qualquer artigo bem demonstrado ou bem corroborado não precisa de revisão por pares para sua validação. A revisão serve apenas para instruir a população que não possui a competência técnica para julgar.


O que o revisor faz é basicamente dizer “dentro dos limites do que eu compreendi, não parece haver erros nisso”. E na prática, o que se observa, é que mais de 99% dos artigos científicos contém erros que escaparam aos revisores. Além disso, artigos com inovações excepcionais e corretas podem nunca chegar a passar pela revisão por pares. As inovações de Newton de 1664 a 1666 só foram publicadas em 1687, as inovações de Galois são foram publicadas décadas depois de sua morte, entre centenas de outros casos. A obra de Newton não era menos revolucionária antes de ser formalmente publicada. Era apenas menos acessível a outras pessoas além dele próprio e um seleto grupo que conseguia compreender o que Newton havia feito.


Mas um estudo como o da Tatiana precisa de revisão por pares, porque ela própria não tem como saber se os resultados são válidos com base apenas no que foi feito até agora. A tese que ele defende é muito interessante, mas ela própria não sabe em que medida essa tese está correta, porque não existem ainda dados suficientes. Ela está em fase de desenvolvimento da pesquisa. Por enquanto, foi testado em animais. Em seguida, enquanto não obtinha autorização da ANVISA para passar à fase 1 com humanos, realizou um teste de bancada (informal) com 10 pacientes.


O teste de bancada ainda não chega a ser uma prova de conceito, mas é quase isso. Nessa conjuntura, a pressão popular e das mídias foi positiva para acelerar a aprovação da aprovação da ANVISA e possivelmente obter financiamento extra para acelerar o processo, porque as fases 2 e 3 são onerosas. A fase 4 deveria dar lucro, desde que ela fosse detentora das patentes, e aqui deparamos com um detalhe importante das denúncias que estão sendo feitas. Por negligência das entidades fomentadoras, ela perdeu a patente por falta de pagamento. Isso é um completo absurdo. Essas agências financiam todo tipo de artigo inútil, bolas inúteis, desperdiçando bilhões para alimentar os egos de pseudopesquisadores improdutivos, e deixam de financiar uma das raríssimas pesquisadoras que deu sinais concretos de produzir algo notável. E aqui não importa se os resultados que ela obteve serão ou não confirmados. Ela já deu provas mais que suficientes de competência e de que as pesquisas dela podem valer bilhões. É ridículo as agencias fomentadoras financiarem bolsas que já se sabe que não resultarão em nada, porque tratam de temas estéreis e medíocres, e deixar de financiar um trabalho com potencial real de ser revolucionário.


Quando digo que não importa se será confirmado é porque todo financiamento é uma aposta. Não se sabe de onde virá o lucro. É como um investidor anjo serial, ou um jogador de poker. Ele terá prejuízos em alguns casos, mas terá lucro em outros, e precisa selecionar quais casos terão melhores perspectivas de lucro. No caso da Tatiana, um investimento de poucos milhões teria algo como 20% de probabilidade de retornar bilhões. Isso é um investimento excepcional. Qualquer jogador com um pouco de experiência enxerga isso, qualquer estatístico, qualquer pessoa sensata. Mas alguém de delibera sobre esses assuntos e que ocupa uma posição incompatível com sua capacidade, dentro das instituições que determinam quem receberá ou não verba para pesquisa, cometeu um erro crasso em permitir que ela perdesse a patente. Isso precisaria ser investigado e a pessoa substituída, porque o tamanho dos danos que essa pessoa causa ao país e à humanidade é imenso.


Aqui chegamos a outro ponto importante. Eu disse “20% de probabilidade de retornar bilhões” porque essa é uma estimativa realista sobre as probabilidades de que os resultados que ela obteve até agora sejam corroborados nos limites necessários para provocar a revolução que se tem alardeado. Embora 20% possa parecer pouco, é talvez o mais perto que alguém brasileiro já chegou até agora de um Nobel de Medicina. Mais adiante, vou comentar um pouco obre o Carlos Chagas.


Os 52,1% que citei acima é fácil de calcular, usando uma Binomial. Os 4,88% é um pouco mais difícil, usando uma multinomial. Esses 20% que citei agora são muito mais difíceis de calcular, sendo possível apenas estimar com base num conjunto completo de mecanismos. E aqui convém esclarecer mais um ponto. Mesmo que os resultados não venham a se confirmar, o que ela fez até aqui já representa algo extraordinário, que pouquíssimos brasileiros conseguiram. Porque não é só com base nos resultados estatísticos que se deve avaliar o caso. É necessário também considerar a fundamentação teórica, os mecanismos subjacentes, e nesse aspecto há indicativos de que a polilaminina seja superior a outras substâncias testadas até agora para essa finalidade. Portanto mesmo que não venha a se tornar o novo tratamento padrão ouro, será no mínimo uma das melhores alternativas disponíveis.


Nesse contexto, nos próximos anos ela deverá se tornar candidata ao prêmio Lasker, Breakthrough, Wolf ou Brian, mesmo que os testes posteriores não se mostrarem não bons quanto no estudo pré-clínico. Além disso, se os resultados se mostrarem tão bons ou melhores que o estudo pré-clínico e os testes prosseguirem até a fase 4, ela pode ser uma candidata séria ao Nobel de Medicina.


Isso tudo é realista. Agora vamos comparar com o circo que se está construindo. O que existe até o momento é uma publicidade imensa, baseada em resultados incipientes. Conceitualmente são resultados interessantes e possivelmente promissores, mas estatisticamente são frágeis, inclusive ela própria tentou explicar isso em algumas entrevistas, mas lamentavelmente poucas pessoas estão interessadas na verdade factual, preferindo o sensacionalismo barato.


Aqui é importante tomar extremo cuidado, para separar cirurgicamente a atividade honesta desenvolvida pela Tatiana da palhaçada midiática em torno de uma pesquisa em fase inicial, ou pré-inicial.


O que acontece quando se constrói uma caricatura midiática como essa? Em primeiro lugar, agrava-se a falta de credibilidade do Brasil no exterior, por tentar empurrar à força qualquer coisa aleatória como se fosse uma grande inovação. Nesse caso não é uma coisa aleatória. É um indício de algo relevante, mas é ainda um indício. O Brasil tem uma longa tradição com palhaçadas onde se tenta construir falsos heróis, e uma das consequências é que quando surgem trabalhos verdadeiramente extraordinários, o Brasil já está estigmatizado como o país da malandragem, que exagera em tudo, criando barreiras para quem realmente produz trabalhos de alto nível.


A Tatiana acaba se encaixando aqui nos dois lados: está produzindo um trabalho sério e que pode ser de fato confirmado como de altíssimo nível, e ao mesmo tempo está sendo usada pela mídia e nas redes sociais para disseminar montanhas de informações falsas, minando a credibilidade científica do Brasil aos olhos de cientistas sérios, de comitês de prêmios científicos, de instituições sérias etc., porque comemorar a vitória tão precocemente é indicativo de vários problemas éticos, culturais e cognitivos.


Vejamos um exemplo diferente: em 14/02/1919, Einstein se separou legalmente de Mileva, e como parte do acordo, ele ofereceu a ela o dinheiro do Nobel que ele ainda não havia recebido, em vez de pagar mensalmente uma pensão. E ela aceitou. Em 1922, foi anunciado que Einstein havia sido laureado com o Nobel de 1921, e no final de 1922 ele recebeu o dinheiro do prêmio (121.572 coroas suecas) e repassou a Mileva.


Como ele podia negociar um prêmio que nem sequer havia recebido, e como alguém poderia confiar que ele receberia a ponto de aceitar a negociação? A questão é muito simples, e qualquer pessoa que conheça o suficiente sobre História da Ciência sabe que desde 1905, Einstein merecia pelo menos 3 ou 4 prêmios Nobel, e nos anos seguintes ampliou essa lista para 4 a 6. Era praticamente impossível, apesar das sabotagens covardes que ele vinha sofrente, que o comitê pudesse fingir que ele não existia, especialmente depois do elipse de 1919 e o apoio de seus amigos, especialmente Eddington, que fez uma publicidade pesada sobre as previsões de Einstein terem sido corroboradas, era quase impossível que ele não recebesse pelo menos um Nobel. Embora o prêmio de 1921 não tenha qualquer relação científica com o experimento de 1919, mas sim com um dos artigos de 1905 (sobre efeito fotoelétrico), a pressão publicitária, popular e da comunidade científica deixou o comitê sem escolha a não ser reconhecer pelo menos uma das grandes inovações de Einstein. Isso era inevitável, porque a obra dele transbordava méritos e ultrapassava em muito as obras da maioria daqueles que já haviam sido laureados. É basicamente a minha situação. Com o volume e a relevância de minhas contribuições para a Economia, inclusive aprimoramentos nos trabalhos de 6 ganhadores de Nobel em Economia e 1 de Física, superando mais de 90% dos pesquisadores que já foram laureados, não há como não receber o justo reconhecimento.


Os méritos já estão bem estabelecidos, consolidados, o que falta é que as pessoas certas tomem conhecimento. Ou seja, é mera questão de tempo, até que meus trabalhos estejam devidamente publicados em revistas, e as pessoas que precisam tomar conhecimento sejam devidamente informadas. Não se trata de algo que precisa de alguma validação além das demonstrações e corroborações que já existem há anos. Trata-se apenas de traduzir, formatar, publicar e chegar às pessoas certas. Isso não é arrogância. É autoconhecimento, sensatez e admissão da realidade sem hipocrisia e sem falsa modéstia. Esse realismo desagrada a haters e a alguns perfis de pessoas que apreciam a hipocrisia e acham que falsa modéstia é uma virtude. Mas qualquer pessoa honesta, que valoriza a verdade e reconhece os fatos, aprecia a franqueza e a percepção correta do próprio potencial.


Isso me coloca numa situação em que acabo sendo prejudicado por publicidade enganosa sobre pesquisadores brasileiros, pelos motivos que acabei de explicar. Quando se inventa falsos heróis num certo país, e se faz todo tipo de hagiografia barata e distorcida, os outros países passam a olhar com excesso de ceticismo para qualquer relato de inovação proveniente desse país. O Brasil já tem uma péssima reputação nesse sentido, por isso construir mais um personagem ficcional, sem respaldo robusto, serve apenas para agravar a credibilidade internacional do Brasil e de brasileiros, dificultando que a própria Tatiana, eu e outras pessoas sejamos avaliados sem o estigma que contamina a imagem dos brasileiros aos olhos do mundo desenvolvido.


É como a velha história do menino que gritava “Socorro, um lobo, um lobo!” e todas as vezes era mentira. Quando surgiu um lobo real, ninguém acreditou e o menino foi devorado. Do mesmo modo, a credibilidade do Brasil é arruinada cada vez mais a cada vez que se dispara esse tipo de alarme falso, e quando surge no Brasil algo realmente digno de reconhecimento, o mundo já tapou os ouvidos para qualquer grito histórico que venha do Brasil.


Quase qualquer coisa que se produz no Brasil é inflada ao extremo e anunciada como grande descoberta. Em parte, isso acontece porque é tão raro que se produza qualquer avanço mínimo no Brasil, que quando surge algo de médio porte, ou algo que pode vir a se tornar de grande porte, fazem um alarde imenso. O caso mais famoso em que se fez isso foi o de César Lattes, com a diferença que Lattes não fez qualquer contribuição real, foi 100% publicidade vazia. No caso da Tatiana existe uma contribuição real e com potencial para ser grandiosa, se for devidamente testada e os resultados preliminares forem corroborados. Mas o carnaval que se está fazendo é como se comemorassem a vitória de Rubinho Barrichello porque ele completou a primeira volta quase empatado entre os 5 primeiros, faltando ainda 70 voltas para terminar a corrida. Qualquer pessoa com um pouco de experiência e bom-senso percebe que se trata de um erro grave.


Repare que não é a mesma coisa que Senna ou Piquet. Se fosse Senna ou Piquet ou Fittipaldi, com um histórico concreto de campeonatos mundiais, concluir a primeira volta em primeiro seria um indicativo substancial de alta probabilidade de terminar a corrida em primeiro. Seria como se Pauling estivesse numa fase de testes bancada, mas pelo histórico pregresso, a probabilidade de concretizar as expectativas seriam substancialmente maiores, numa perspectiva bayesiana.


O que podemos inferir até o momento é que a Tatiana é uma pesquisadora séria e tem obtido resultados interessantes para a evolução de AB, além de ter obtido resultados modestos de AC e AD (dentro de expectativas típicas). Se os resultados AB forem confirmados por pesquisadores independentes, existe um potencial real para prêmios internacionais importantes, entre os quais o Lasker é talvez o mais provável.


Não é errado fazer a apologia de quem merece, desde que seja justa, apoiada em fatos, acurada, bem fundamentada. Livros sobre Einstein, por exemplo, geralmente são realistas, não exageram para mais nem para menos, assim como o livro que a Tamara escreveu sobre mim. Livros sobre Bruce Lee exageram para mais. Bruce foi fenômeno, sem dúvida, mas cerca de 20% das proezas mais extraordinárias atribuídas a ele não se apoiam em dados e entram em conflito com depoimentos de testemunhas. Isso fornece subsídios para que críticos mal-intencionados coloquem em dúvida a excepcionalidade de Bruce Lee, porque se algumas histórias sobre ele não são reais, colocam em dúvida todo o resto. Isso é errado. A maioria parte do que se diz sobre Bruce é real. Chuck Norris é um caso diferente, porque existe o Chuck real, que as pessoas sabem que as informações são documentadas, e existe o meme que criaram sobre ele para brincadeiras. Isso não é distorção, porque não pretende enganar ou se afastar da verdade. Quando se diz que ele se move mais rápido que a luz ou ele contou até infinito duas vezes, entende-se como piada. Na maioria das biografias de cientistas, os registros costumam ser corretos, sem exageros, com poucas exceções. Lattes é quase o oposto. Todas as alegações de qualquer coisa extraordinária atribuída a Lattes entra em conflito com os documentos históricos e não sobrevive a uma análise crítica mais profunda e rigorosa.


Convém analisar também um exemplo histórico em que um trabalho de alto nível, e seu autor, foi prejudicado pela péssima reputação do Brasil de exagerar em tudo. Em 1909, Chagas publicou os resultados de seu estudo, descrevendo todas as etapas da doença de Chagas, causada pelo agente Trypanosoma cruzi. Continua sendo um caso único no qual a mesma pessoa descobriu e descreveu todas as fases da doença. Além disso, usou um método reverso que não era habitual na Medicina (embora fosse em outras áreas). Havia potencial real para um Nobel, porém ele foi discriminado por ser brasileiro.


Ironicamente, Chagas foi prejudicado pela publicidade exagerada sobre Santos-Dumont, sem que Dumont tivesse culpa. Foram, na verdade, dois efeitos combinados: médicos invejosos que o sabotaram de várias formas, e falta de credibilidade do Brasil. Em 1906, e nos anos seguintes, houve uma publicidade exagerada, tentando reivindicar à força, para Dumont, um mérito que era no mínimo discutível porque havia muitos outros pioneiros com méritos similares ao dele na mesma época. Devido a esses exageros, a comunidade internacional havia formado um pré-conceito (ou pós-conceito) contra brasileiros, porque sabiam q os discursos da mídia eram cheios de retórica e vazios de méritos. Quando chegou Chagas com resultados reais, foi recebido com ceticismo. Para o eixo Europa—EUA, o brasileiro era visto como povo que “gritava muito e provava pouco”.


Naquela época, o Brasil já tinha a reputação de exagerar realizações. Quando surgiu um trabalho verdadeiramente notável, acabou sendo visto como se fosse apenas mais um resultado pela publicidade barata dos brasileiros. A vergonha brasileira foi tão grande que em 1921, Chagas era praticamente o único candidato ao Nobel, porque não havia outras inovações de peso em Medicina que pudessem concorrer, mas em vez de conceder o Nobel a ele, o comitê declarou que como não havia nenhum trabalho digno do prêmio, aquele ano não haveria Nobel de Medicina.


Como consolação, Chagas foi distinguido com o prêmio Schaudinn de infectologia em 1912. Mas o povo e a mídia no Brasil não aprendem, e continuam tentando os mesmos truques de sempre, piorando cada vez mais a reputação do Brasil.


Joana D’arc Felix de Sousa e de Gilberto Orivaldo Chierice, são dois exemplos recentes, entre vários outros de diferentes épocas, que a mídia brasileira costuma apresentar como se tivessem feito alguma descoberta extraordinária. O caso de Joana D’arc se resume em fraude barata e óbvia. O caso de Gilberto é mais complexo, trata-se de pesquisador sério e bem intencionado, mas sem suficiente treinamento científico para perceber que seus resultados não apenas eram inconclusivos, como nem sequer se poderia extrair qualquer interpretação útil daqueles dados. Quando começaram as pesquisas sérias e controladas, ficou evidente o que já era previsível: fosfoetanolamina é inerte no combate ao câncer, tudo não passou de um grande circo. Após a constatação da verdade, nenhuma das mídias se retratou pela disseminação de notícias falsas e sensacionalistas.


Alguns dos outros casos sérios, mas exagerados pela mídia, incluem Santos-Dumont, Oswaldo Cruz, Nicolelis, Almir Caldeira. Em todos esses casos, os pesquisadores tiveram méritos importantes, mas foram inflados ou distorcidos. No caso de Caldeira, acho que não chegou a ser muito distorcido, talvez ele até tenha recebido da mídia uma atenção menor do que merecia, em volume de divulgação, mas nos poucos casos em que foi divulgado, o discurso foi inflado. O caso de Dumont é complexo, e não caberia aqui uma análise completa e justa. O que posso dizer é que não é propriamente “inflado”, mas escondem os nomes de quase 10 outros pioneiros de diferentes países que também fizeram contribuições importantes e disputam o podium na corrida pela construção da primeira aeronave mais densa que o ar.


Entre os casos menos sérios (muita publicidade sem nenhum fundamento), mas que não chegam ao ponto de serem classificados como fraude, o mais notório foi César Lattes. Ele não foi fraude, como Joana D’Arc, mas não foi muito mais que um bom técnico e um personagem folclórico, construído para obter financiamentos do governo para membros de um grupo de ativistas políticos. A construção publicitária e política em torno de Lattes teve peso acima da média por contar com participação de muitos ativistas políticos com ligação à ciência, o que conferia mais credibilidade ao grupo. Entre eles, estavam o deputado eleito (mas não empossado) Mário Schoenberg, José Leite Lopes, Marcelo Demi e outros. Todos estes foram pesquisadores sérios e competentes, mas também foram excelentes publicitários e ativistas políticos, que transformaram César Lattes num estereótipo de herói injustiçado, por meio de um discurso vazio, sem embasamento. Usaram Lattes para extrair verbas do governo durante décadas, perderam parte da verba com corridas de cavalos, passaram anos sem apresentar relatórios de resultados e desperdiçando recursos, entre outras irregularidades graves. Schoenberg e Leite Lopes fizeram contribuições relevantes, que foram infladas, mas mesmo depois de avaliá-las na proporção justa, ainda permanecem relevantes. Mas Lattes não fez nada relevante. Tudo em torno dele são lentas bem construídas, desde São Paulo, Chacaltaya, Bristol e Berkeley, há 0 contribuição real relevante. Há um vídeo de 5 h no qual analiso detalhadamente o caso de Lattes, com documentos primários disponíveis no acevo da USP, inclusive cartas mútuas entre Lattes, Powell, Wataghin, Occhialini, Fundação Rockfeller, Demi, Leite Lopes, Schoenberg e outros. O que os fatos mostram é muito diferente da versão embelezada e distorcida que acabou se cristalizando, um “folclore canônico” instituído como verdade pela força da repetição, embora gravemente conflitante com os fatos.


Como o caso de Tatiana Sampaio entra nessa história? Até onde pude avaliar, ela é pesquisadora séria e bem-intencionada, tentando ajudar pessoas dentro dos limites de sua capacidade e dentro dos recursos disponíveis. Teve uma ideia promissora, de usar polilaminina para “instruir” os axônios sobre o caminho que deveriam tomar para reconectá-los. Aqui precisamos esclarecer alguns detalhes:


Conheço alguns casos fenomenologicamente semelhantes aos dos pacientes do estudo de Tatiana, mas etiologicamente muito diferentes: Mequinho, Hawking, Reeve (este é semelhante), Pimpe.


Vamos começar com a tabela ASIA, usava para classificar o grau de lesão medular:

Grau	Classificação	Definição Funcional

A	Completa	Nenhuma função motora ou sensitiva preservada nos segmentos sacrais S4-S5.

B	Incompleta Sensitiva	Sensibilidade preservada abaixo do nível neurológico, mas sem função motora.

C	Incompleta Motora	Função motora preservada, mas a maioria dos músculos-chave é muito fraca.

D	Incompleta Motora	Função motora preservada e a maioria dos músculos-chave tem força útil.

E	Normal	Funções sensitiva e motora estão normais em todos os segmentos.

Os pacientes estudados por Tatiana são casos de lesão medular, isto é, os condutores de sinais elétricos do cérebro aos músculos foram rompidos. A polilaminina (entre outras substâncias testadas) tenta induzir reconexões.


No caso de Mequinho, a medula está estruturalmente “intacta”, dentro dos limites do que se compreende sobre o assunto. Não há ruptura. Mas a junção entre o nervo e o músculo não está transmitindo o sinal. Ele teve (tem) miastenia gravis, uma doença autoimune na qual os anticorpos bloqueiam os receptores, impedindo que o sinal químico chegue aos músculos. Não haveria necessidade nem utilidade em regenerar axônios, portanto o tratamento com polilaminina não o ajudaria.


No caso de Hawking, trata-se de esclerose lateral amiotrófica, uma doença degenerativa com falência progressiva de neurônios motores. Numa pessoa saudável, não ocorre esse processo, sendo possível estimular o crescimento de axônios para restaurar as conexões. Para Hawking, essa estratégia seria insuficiente.


Christopher Reeve (Super homem de 1978) sofreu uma lesão medular traumática, exatamente o caso investigado por Tatiana. Para ele o procedimento seria aplicável, desde que ele tivesse sofrido o acidente há pouco tempo. A Tatiana poderia ser “A mulher que salvou o super homem”, literalmente.


O Pimpe é meu tio, sofreu um AVC, ficou com uma hemiplesia (paralisado de um lado), não conseguia andar, segurar talheres, mover a boca. Os médicos disseram que era irreversível. Ele passou por 4 sessões de Do-In no Instituto Cultural Imperador Amarelo e recuperou completamente a mobilidade, a força, a coordenação. Se considerar fenomenologicamente, poderia ser interpretado como equivalente a um caso pleno de AE pela tabela ASIA. Mas etiologicamente seria um erro de categoria porque a tabela é exclusiva para lesão medular. O mesmo vale para Mequinho, que teve recuperação plena.


Henrique Costa Mecking, o Mequinho, teve miastenia gravis no final dos anos 1970, ficou tetraplégico, nem sequer conseguia engolir direito. Recuperou-se totalmente após receber preces intercessórias de membros da Renovação Carismática. Está completamente recuperado, inclusive recuperou força, mobilidade, coordenação. Equivalente à evolução de grau A para E.


Numa amostra de apenas 4 pessoas que tomei conhecimento, 50% tiveram recuperação plena, porém somente uma teve mesma causa primária que os pacientes da Tatiana, por isso pesquisei por alguma meta análise que oferecesse dados estatísticos que permitissem estimar a probabilidade de remissão espontânea, sem qualquer tratamento regenerativo. Encontrei esse estudo https://www.zora.uzh.ch/server/api/core/bitstreams/772bcb2e-7b0d-4666-8df4-3192cfd8e3c6/content com amostra estatística adequada (139 pessoas), indicando os seguintes resultados:


AA: 69,7%

AB: 17,3%

AC: 5,8%

AD: 7,2%

AE: 0,0%


Ou seja, em 12 meses, quase 70% dos pacientes não tiveram qualquer melhora. Portanto 30% apresentaram alguma melhora, sem receber qualquer tipo de tratamento regenerativo e 7,2% evoluíram para grau D.


Há muitas complicações para analisar esses dados, mas vamos tentar julgar com os melhores critérios possíveis, dentro dos limites das informações disponíveis. Para começar, os critérios de diagnóstico são muito vagos, idiossincráticos e sujeitos a vises de confirmação, não é o tipo de estudo que permite duplo-cego.


As classificações nos graus A, B, C, D, E, para distinguir entre A e B não é como determinar se um número é primo ou não; não é como determinar se uma chave está dentro de uma gaveta ou não. É mais como determinar se o cabelo de uma pessoa é comprido ou não. O que exatamente significa “comprido”? Há um limiar de sensibilidade que torna difícil saber se a pessoa está sentindo de fato ou não.


Os erros ao classificar como A ou B são frequentes, mesmo quando o pesquisador está empenhado em avaliar com máximo rigor, porque é difícil distinguir casos limítrofes entre A e B. Aqui convém esclarecer um ponto fundamental. O protocolo para classificar como A ou B se baseia em exame impessoal (ISNCSCI) e self-report, com base na percepção reportada pelo paciente, mediante estímulo “padronizado”. Quando digo “padronizado”, não é de fato padronizado. Apenas recebe o nome de “padronizado”, mas é extremamente vago, com nome “toque leve”. O que significa “leve” deveria ser substituído por uma medida objetiva de pressão, além de especificação precisa de localidades. Sem isso, não é correto falar em “padronização procedural”. Mas isso não é culpa da pesquisadora. É erro metodológico institucionalizado que deixa os diagnósticos vagos e as métricas de recuperação incertas.


No registro do ensaio (REBEC, RBR-9dfvgpm), a avaliação de eficácia/segurança é descrita como verificada por exame neurológico AIS, mas o registro não detalha no texto público se o avaliador foi independente, quantos avaliadores, se houve auditoria de concordância, filmagem, etc. Vamos aceitar como postulado que os relatos são válidos e acurados, que é a hipótese mais otimista e respeitosa com a Tatiana e sua equipe.


Nas condições em que os exames foram realizados, há numerosos erros instrumentais e outros, mencionados na literatura, que dificultam distinguir A e B por meio do DAP, S4—S5. O limiar A/B depende de sinais sacrais sutis e parcialmente subjetivos (percepção do estímulo + cooperação), o que torna o cut-off “incompleto sensitivo” vulnerável a erro do avaliador e variação do próprio teste. Há estudos que visam substitutos mais confiáveis para DAP (pressão em S3, por exemplo).


Por isso, mesmo pesquisadores experientes e bem-intencionados podem falhar na interpretação dos resultados desse exame e confundir A com B. Isso é especialmente grave quando há desejo ou interesse do pesquisador em classificar como A antes do tratamento e B depois do tratamento, pois o pesquisador fica incentivado a enxergar melhora tanto na métrica do exame quanto na reação do paciente, e o próprio paciente tem esse incentivo devido ao seu desejo de melhora, que pode ser ainda intensificado por encorajamento do pesquisador e equipe, pois todos querem o sucesso do tratamento, resultando em interpretação distorcida dos resultados.


O progresso de A para B é o mais sensível a esse tipo de viés emocional. O progresso de A para C é comparativamente muito mais objetivo, embora ainda haja fatores subjetivos e emocionais envolvidos. O progresso de A para D tem risco substancialmente menor de erro, pois configura preservação motora abaixo do nível neurológico e força acima de Medical Research Council (MRC) ≥3/5 em mais de 50% dos músculos-chave abaixo do Neurological Level of Injury (NLI). Ainda há riscos de erros, mas comparativamente ao progresso AB, o AD tem menor risco de erro.


Portanto quando temos os resultados reportados de 10 pessoas examinadas, das quais 8 sobreviveram, 3 evoluíram de A para B, 2 evoluíram de A para C e 1 evoluiu de A para D, precisamos lidar considerar que há diferentes níveis de confiabilidade em cada caso. Não estou falando de confiabilidade na probidade e perícia da Tatiana e sua equipe. Estou falando de limitações técnicas, instrumentais, protocolares, vieses emocionais e outros, que são comuns em pesquisas científicas.


Agora que fizemos uma introdução razoável, vamos examinar os resultados obtidos, começando pelo caso que tem sido mais distorcido pela mídia: Bruno Drummond de Freitas. Bruno estava tetraplégico e agora está caminhando. Mas ele foi o único entre 10 a atingir esse progresso (AD). Em princípio, parece algo extraordinário, assim como uma pessoa sobreviver a uma queda de avião ou uma pessoa “morrer” clinicamente e voltar à vida. Mas a realidade é muito diferente da intuição.


Em geral, nossa intuição sugere que uma queda de avião é fatal em praticamente todos os casos, exceto por algum milagre. Mas a realidade estatística com base em mais de 54.000 casos registrados entre 2000 e 2017 é que 98,7% das pessoas sobrevivem. https://www.ntsb.gov/safety/data/Pages/Part121AccidentSurvivability.aspx


A mesma coisa para pessoas que foram declaradas clinicamente mortas e depois ressuscitaram. Eu conheço duas pessoas: Pierluigi Piazzi e Samuel Alves Galdino. Eu achava que era uma “sorte imensa” conhecer duas pessoas que morreram e voltaram, mas quando pesquisei sobre o assunto, constatei que é extremamente comum, e provavelmente todas as pessoas conhecem dezenas a centenas de que passaram por isso, porém só chegam a tomar conhecimento quando isso lhes é relatado pela pessoa, por isso fica-se com a ilusão de ser raro. Os registros de morte clínica seguida por ressuscitação variam de 4% a 15% dependendo do critério usado para classificação.


O mesmo acontece com pessoas que ficaram paraplégicas, inclusive tetraplégicas, e voltaram a andar. Cerca de 7,2% das pessoas na condição A (tetraplégica e paraplégica), sob tratamento convencional, sem receber procedimentos regenerativos que tentam reconectar axônios, evoluíram para o grau D.


No caso do estudo da Tatiana, se considerar os 10 casos iniciais, 1 voltou a andar, temos 10%. Qual é a probabilidade de que tal resultado tenha sido casual? A resposta é 1-(1-0,072)10, ou seja, cerca de 52,1%. Essa é a probabilidade de que, numa amostra com 10 pessoas no grau A, sem receber tratamento regenerativo, pelo menos uma volte a andar. Se remover do estudo as duas pessoas que morreram e tratar como 8 pessoas, temos 44,5%.


Ou seja, se está fazendo um alarde imenso por falta de conhecimento estatístico. O resultado obtido seria reprovado em todos os testes estatísticos com p-valor 0,01, 0,05, 0,1 e até mesmo 0,5. Não há evidência minimamente razoável de que o método utilizado pela Tatiana aumenta a probabilidade de sucesso de pessoas no grau A para chegar ao grau D.


Agora vamos analisar o que é realmente interessante: quando consideramos o progresso de A para B ou acima de B, que é um nível bem mais modesto de melhora, a expectativa sem tratamento é 30%. O resultado da Tatiana foi 60% se considerar as 10 pessoas iniciais e 75% se considerar as sobreviventes. A probabilidade de que isso seja casual é baixa, cerca de 4,88%, revelando um provável sucesso no tratamento a esse nível de recuperação.


Ainda há que se considerar os pontos que já foram citados, sobre risco de erro na classificação entre A e B. Como a amostra é muito pequena, não há como extrair parâmetros sobre a dispersão em cada grupo, mas podemos transferir parâmetros de outros estudos, assumindo que sejam semelhantes, e nesse caso ainda há cerca de 6,7% de probabilidade de que os resultados observados sejam casuais.


O que podemos concluir disso tudo é:


1. Tudo indica que Tatiana seja pesquisadora séria, trabalhando sobre hipótese interessante, bem fundamentada biologicamente, com boas perspectivas de êxito, assim como vários outros pesquisadores estão tentando com mesma estratégia de regeneração de axônios, mediante indução de caminho por diferentes substâncias. Ela adicionou ao histórico de pesquisas desse gênero uma substância que ainda não havia sido testada para essa finalidade, e com microestrutura indicativa de que pode atingir melhores resultados. Isso emérito real, conceitual e operacional.

2. Os resultados experimentais em “testes de bancada”, antes da fase 1, se mostraram promissores com possível aumento na probabilidade de sucesso de A para B (recuperar sensibilidade).

3. Não há indício, ao nível de significância 0,1 ou 0,05 ou 0,01 de aumento na probabilidade de sucesso de A para C (recuperar mobilidade) ou A para D (voltar a caminhar). O único resultado obtido está dentro das expectativas em casos similares sem receber qualquer tratamento regenerativo.


Portanto, estão fazendo tempestade em copo d’água, usando um caso típico como se fosse extraordinário, e não comentando sobre a parte realmente relevante (relevante, mas não extraordinária) de melhora nos casos de pessoas que recuperaram sensibilidade. Isso é compreensível, porque vende muito mais uma notícia do tipo “paraplégico volta a andar” do que “60% dos paraplégicos testados voltaram a sentir terminais nervosos na pele, tais como dor, calor, pressão suave”.


Esperamos que a Tatiana receba mais recursos para suas pesquisas, que se revelam de fato importantes e promissoras, e que as mídias adotem uma postura mais cuidadosa para evitar a disseminação de desinformação e sensacionalismo.


No momento em que estou finalizando esse artigo, a Tatiana recebeu autorização da ANVISA para iniciar testes Fase 1, com 5 pacientes, agora sob condições controladas e mais rigorosas. Esperamos que brevemente tenhamos mais notícias positivas, sobretudo em casos de AE e AD.


Para finalizar, mais um ponto importante que precisa ser destacado: quando Tatiana começou suas pesquisas, havia dois grupos de 5 pessoas cada, um recebia o tratamento regenerativo, ou outro não para servir como grupo de controle. Porém, quando ela percebeu que estavam se consolidando indícios de que o grupo que recebia tratamento estava melhorando, ela decidiu sacrificar a pesquisa para salvar as pessoas e juntou os dois grupos, oferecendo tratamento regenerativo a todos. Muitos pesquisadores teriam mantido o estudo com os grupos separados até o final, priorizando a validade do método, mas Tatiana renunciou à validade do método para priorizar a vida e o bem-estar das pessoas. Só por esse gesto ela já merecia um reconhecimento especial e um financiamento amplo para suas pesquisas.




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