Método dos 6 Pilares, de Gerson Peres Batista Por Hindemburg Melão Jr.

A série de livros sobre a qual pretendo falar hoje é uma das mais completas e didáticas. A Teoria de Aberturas está bem atualizada, as análises são acuradas e detalhadas, a linguagem é bastante contemporânea e o autor tem força similar ou é até um pouco mais forte que o autor do Xadrez Básico, com o diferencial de ele estar familiarizado com os avanços na compreensão do jogo que ocorreram nas últimas décadas e continuam ocorrendo a cada dia. A organização do conteúdo tem um formato bastante agradável, assim como o estilo da apresentação. A publicação do qual estou falando é do mestre Gérson Peres Batista. Antes de prosseguir, eu gostaria de esclarecer porque geralmente cito o curso do Gérson antes dos cursos dos GMs. Um dos motivos é por amizade e sempre vou citar amigas e amigos primeiro e com maior destaque, mas não apenas por isso. Há muitas outras razões, e para que algumas dessas razões fiquem mais claras, acho necessário apresentar um fato que muitos enxadristas não conhecem: o melhor treinador do mundo foi o MI Mark Dvoretzky. Oras, mas há 1721 GMs no mundo, como é possível que um MI seja considerado o melhor treinador? E a resposta é muito simples: para ensinar bem não basta jogar bem. Claro que é importante saber como jogar bem para poder ensinar, mas a combinação de saber ensinar bem e saber jogar bem pode ser mais importante do que apenas jogar excepcionalmente bem. Ter 2200 de rating + formação em Pedagogia, por exemplo, pode ser mais importante do que ter 2600, mas sem experiência com ensino. E não apenas ter experiência em Pedagogia, mas também ter amor ao que faz, gostar de ensinar e gostar de Xadrez, pode fazer uma grande diferença. Pode-se fazer uma analogia com programas de Xadrez. Os melhores programas de Xadrez do mundo, durante décadas, foram desenvolvidos por programadores com 1400 a 1900 de rating, geralmente estes programas chegaram a 2500, 3000 e até 3500 de rating. Como eles conseguiam “ensinar” a seus programas como jogar melhor do que eles próprios? E mais: como conseguiam que seus programas jogassem melhor que os programas desenvolvidos por programadores com rating muito maior que o deles? Para desenvolver um excelente programa de Xadrez, não basta ter bom conhecimento de Xadrez. É necessário também ter um excelente conhecimento de programação e, principalmente, é necessário compreender as dificuldades da máquina em “interpretar” os conceitos utilizados pelos humanos. É necessário se imaginar no lugar da máquina e planejar uma maneira eficiente de explicar de maneira compatível com a que elas “aprendem”. Voltando ao caso dos humanos, o detalhe crucial está na habilidade de compreender como o aluno pensa, em se preocupar com que o aluno precisa compreender o conteúdo que está sendo transmitido. Um GM pode ser muito habilidoso na compreensão de uma posição, mas ao descrever os critérios que o aluno deve utilizar, para que este aluno seja capaz de compreender bem aquela posição e tomar uma boa decisão, o GM pode não perceber tão bem as dificuldades do aluno e, assim, acaba não criando estratégias pedagógicas tão eficientes, que facilitariam que o aluno assimilasse aquele conteúdo. De modo geral, os GMs se preocupem em descrever com rigor os aspectos técnicos, preocupam-se com a exatidão de suas análises e de suas opiniões sobre cada posição, o que é sem dúvida muito importante, mas muitas vezes não atribuem o devido peso ao fato de que o ensino é um processo de mão dupla, no qual a qualidade da interação com o aluno pode ser mais importante que a exatidão na informação. Ao analisar os conteúdos dos materiais didáticos do professor Gérson, um detalhe que me chamou a atenção é o quanto ele se preocupa se o aluno vai aproveitar adequadamente a informação que está sendo transmitida, se vai compreender, se vai se lembrar a longo prazo etc., tudo isso sem perder de vista o rigor técnico e a exatidão da informação. Além disso, ele aborda aspectos extra tabuleiro, como preparação física, uso de computadores, fatores psicológicos etc. Isso é importante tanto para quem deseja participar de competições quanto para quem gostaria de usar o Xadrez para melhorar seu desempenho profissional e acadêmico. Eu não concordo com algumas das sugestões que ele faz, mas mesmo nos casos nos quais não concordamos, as ideias dele me parecem muito interessantes e promissoras. Em alguns trechos ele analisa fragmentos de outros livros clássicos, portanto, além de suas próprias contribuições, há uma compilação com os melhores trechos dos melhores livros, muitas vezes com revisões, adaptações e atualizações que enriquecem os textos originais. Em vez de o aluno ler os 200 melhores livros, pode encontrar nesta obra uma seleção com os conteúdos mais relevantes, sintetizados e muitas vezes aprimorados. Certamente nem todos concordam sobre quais são os melhores livros e os melhores trechos de cada livro, mas creio que poucos discordariam de que o resultado final ficou excelente. O conceito de “melhor” é bastante subjetivo, os critérios que eu usaria para selecionar as melhores partidas não seriam os mesmos que ele, nem os mesmos que outros jogadores usariam. O mesmo tipo de divergência de opiniões pode ocorrer em muitas outras situações, o que mostra a grande flexibilidade do Xadrez em possibilitar excelentes resultados por diferentes caminhos. No caso específico das partidas utilizadas para ilustrar cada tópico, achei muito bem selecionadas, os comentários são muito didáticos, abordando temas que geralmente os jogadores que estão começando ficam em dúvida. São detalhes que outros livros muitas vezes “passam batido”, sem comentar, mas o autor teve a sensibilidade de perceber a importância de explicar os motivos pelos quais determinado lance foi escolhido, ou esclarecer porque determinado lance não é tão bom. A ideia de dividir em “6 pilares” certamente não é a única, mas o material ficou muito bem organizado, tudo se harmonizou muito bem, de maneira que os ensinamentos parecem fluir com muita naturalidade. O resultado é um trabalho primoroso, que veio enriquecer a literatura enxadrística nacional, cujo nível está ombro a ombro com o que há de melhor. No livro de Kotov “Piense como un Gran Maestro”, logo no início, o autor descreve uma situação em que o problema que ele apresenta é uma situação pela qual certamente todos os jogadores já passaram, e quando ele termina a exposição, a pessoa conclui “é exatamente disso que eu precisava!” O plano de estudos do professor Gérson causa uma impressão semelhante. Como se tudo isso não bastasse, a série de livros é inteiramente gratuita, sem taxas ocultas, escrito para contribuir na divulgação do Xadrez e proporcionar às pessoas interessadas a oportunidade de aprender desde o básico até um nível razoavelmente elevado (1800 a 2200).