Hoje, navegando pela internet, li uma frase atribuída a Nelson Rodrigues: “Os idiotas vão liderar o mundo, não por sua capacidade, mas sim pelo número”.
A frase simplifica uma questão complexa e, em certa medida, toca em um ponto relevante. Entretanto, o que os últimos anos nos mostram é que na sociedade que vivemos o poder talvez não esteja necessariamente nas mãos daqueles que constituem a maioria, mas nas de quem sabe mobilizá-la, manipulando-a por meio de discursos rasos, notícias falsas (fake news) e mecanismos de influência social, como o efeito manada, que discuto na introdução/apresentação do Guia dos Apodícticos.
Afinal, ao longo da história, o poder raramente pertenceu simplesmente a quem mais o merecia, a quem possuía maior conhecimento e, principalmente, a quem demonstrava maior capacidade. Sua conquista e manutenção dependeram, em grande medida, dos recursos disponíveis para alcançá-lo: força, riqueza, alianças, influência e, sobretudo, a capacidade de conduzir o comportamento humano.
Um olhar retrospectivo sobre a história revela que essa disputa pelo poder assumiu diferentes formas, mas raramente deixou de envolver a capacidade de influenciar aqueles que poderiam ameaçar ou sustentar uma autoridade. Houve reis que eliminaram os próprios parentes para assegurar a sucessão, governantes que recorreram à religião para legitimar seu domínio e líderes que mobilizaram exércitos inteiros em nome de ideais que justificavam suas ambições. Em muitos casos, conquistar o poder exigia força suficiente para derrotar os adversários; conservá-lo, porém, exigia algo mais: criar condições para que a autoridade fosse reconhecida, aceita ou, ao menos, dificilmente contestada.
No Egito Antigo, por exemplo, o faraó ocupava uma posição que ultrapassava a de um administrador ou comandante militar. Sua autoridade estava associada à ordem divina e à manutenção da ordem cósmica, conhecida como maat. A religião, nesse contexto, não era uma esfera separada da política, como frequentemente imaginamos nas sociedades modernas. Ela fazia parte da própria estrutura pela qual o poder era compreendido e legitimado.
Mas a conquista do poder não depende apenas da força ou da legitimação religiosa. Existe outra maneira de dominar uma sociedade: convencer seus integrantes de que estão lutando pelos próprios interesses, mesmo quando suas ações favorecem aqueles que os pretendem controlar.
Essa questão foi explorada por George Orwell em A Revolução dos Bichos, publicado em 1945.
Na obra, os animais de uma fazenda se revoltam contra o proprietário humano, motivados pela esperança de construir uma sociedade mais justa, na qual não sejam explorados. Entretanto, depois da revolução, os porcos assumem a liderança e, gradualmente, passam a reproduzir os privilégios e a opressão que haviam prometido eliminar.
Orwell constrói uma sátira política especialmente relacionada à Revolução Russa e à consolidação do regime stalinista. Isso tem sido geralmente relacionado de forma incorreta ao Socialismo e usado em discursos rasos de combate ao Comunismo, mas na verdade esse efeito está presente tanto no Socialismo quanto no Capitalismo e em qualquer outro regime, pois é uma característica das pessoas não dos regimes. A maioria das pessoas muda de opinião, de discurso, de comportamento quando muda de posição social. Muitos candidatos tinham um certo discurso antes de se elegerem, mas depois fizeram quase tudo diferente. Na Revolução Francesa, antes de os revolucionários tomarem o poder, era basicamente a mesma coisa. Não precisa ser uma revolução. Esse efeito é observado muito mais frequentemente nas eleições. O discurso antes as eleições segue um certo padrão, mas depois de eleito, muda completamente.
Por isso não devemos ter sobre a obra de Orwell uma visão simplista de que ela trata de um problema do Socialismo. Na verdade, ela trata de um problema de caráter da maioria dos seres humanos nas diferentes etapas de disputa pelo poder e ocupação do poder e está igualmente presente no Socialismo e no Capitalismo. Sua obra permite refletir sobre um problema mais amplo: movimentos que surgem prometendo libertação também podem produzir novas formas de dominação.
A lição não é que toda revolução termina em tirania ou que as pessoas sejam incapazes de reconhecer seus próprios interesses. É que as promessas políticas, por mais atraentes que sejam, não dispensam a análise das ações, dos mecanismos de controle e das consequências concretas de quem governa.
O discurso de um líder pode ser convincente. Sua causa pode parecer justa. Suas promessas podem corresponder aos desejos de uma população. Mas nada disso, isoladamente, demonstra que ele utilizará o poder em benefício daqueles que o escolheram.
Adolf Hitler constitui um exemplo perturbador de como a manipulação política pode conduzir uma sociedade à barbárie. Prometendo restaurar a grandeza da Alemanha após a derrota na Primeira Guerra Mundial, conquistou amplo apoio popular mediante discursos que exploravam ressentimentos coletivos, disseminavam o ódio e desumanizavam grupos inteiros. Sob seu regime, pessoas comuns chegaram a justificar, tolerar ou ignorar a perseguição e o extermínio de seus próprios vizinhos. E não estamos falando de uma sociedade desprovida de conhecimento, mas de uma nação com uma das mais extraordinárias tradições científicas e intelectuais da história. Se nem mesmo essa herança cultural foi suficiente para impedir a ascensão do nazismo, que razões temos para acreditar que o Brasil, com suas graves deficiências educacionais e dificuldades na formação do pensamento crítico, estaria mais protegido contra a manipulação política?
Outro exemplo marcante é o slogan da Revolução Francesa: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, mas o que se observou na prática foi sangue, mortes, cabeças rolando, traições, intrigas etc. Afinal, se até mesmo uma revolução iniciada em nome de ideais elevados pode terminar com uma nova elite no comando, o que impede que aqueles que prometem representar o povo acabem utilizando o próprio povo como instrumento para conquistar e conservar o poder?
Essa preocupação com a relação entre o poder, a persuasão e a capacidade de julgar não é recente. Muito antes de Orwell, muito antes de Hitler, os filósofos gregos já se perguntavam até que ponto as decisões de uma sociedade poderiam ser consideradas justas e racionais.
No século V a.C., Atenas vivia uma experiência de democracia direta, na qual os cidadãos habilitados participavam das decisões políticas. Foi nesse contexto que Sócrates se tornou conhecido por questionar as certezas de seus interlocutores, investigando se aquilo que afirmavam saber resistia a um exame racional.
Em 399 a.C., Sócrates foi condenado à morte por um tribunal ateniense. As acusações formais eram impiedade e corrupção dos jovens. O julgamento ocorreu em um contexto de tensões políticas e religiosas, e não seria correto afirmar que ele foi executado simplesmente por questionar os governantes. Ainda assim, sua condenação tornou-se um dos episódios mais marcantes da história da filosofia.
Seu discípulo Platão foi profundamente influenciado por esse acontecimento. Como confiar nas decisões de uma sociedade quando um tribunal pode condenar um filósofo? E como distinguir uma decisão justa daquela que apenas conseguiu reunir apoio suficiente para prevalecer?
Essas questões ajudam a compreender A República, uma das principais obras de Platão.
No Livro VI, Platão apresenta uma analogia extremamente importante para compreender um fenômeno recorrente na política brasileira e mundial, um fenômeno muito triste por ser destrutivo para qualquer nação, conhecido como a alegoria do navio. Imagine uma embarcação na qual vários marinheiros disputam o comando, embora nenhum domine a arte da navegação. Eles procuram convencer o responsável pelo navio a lhes entregar o leme, enquanto o verdadeiro navegador, aquele que conhece os ventos e sabe conduzir a embarcação, é considerado inútil por não participar adequadamente da disputa.
A comparação expressa uma crítica à confusão entre conquistar o poder e possuir o conhecimento necessário para exercê-lo. Para Platão, saber persuadir alguém a entregar o leme não equivale a saber navegar. E o que se observa na política é exatamente essa situação: o que faz com que um candidato seja eleito não é sua capacidade para exercer o cargo ao qual ele concorre, mas sim sua retórica para seduzir os eleitores.
Mais de dois mil anos depois, os eleitores continuam cometendo o mesmo tipo de erro.
Obviamente que uma pessoa pode apresentar grande habilidade retórica, compreender profundamente a psicologia das multidões e dominar mecanismos de comunicação, sem possuir as competências necessárias de economia, administração pública, ciência ou políticas sociais. Inversamente, alguém com extraordinária competência técnica pode ter pouca habilidade para conquistar popularidade ou simplesmente não ter interesse ou motivação para participar dos jogos sujos da disputa pelo poder.
O problema torna-se ainda mais grave porque os mecanismos eleitorais selecionam diretamente pela capacidade de obter votos, enquanto a capacidade de governar é avaliada apenas indiretamente e cabe ao povo avaliar, mas entramos em um ciclo vicioso no qual os manipuladores da opinião pública conseguem inclusive vender a ilusão de que eles são competentes, mesmo quando nunca deram provas disso. Pessoas que nunca administraram uma padaria, nunca resolveram um problema difícil e importante, nunca tiveram que tomar decisões difíceis em questões complexas, se apresentam como se tivessem capacidade para liderar uma nação, resolver os problemas de um país, tomar decisões de impacto nacional e global. Ao construir essas narrativas, tais pessoas acabam se perpetuando no poder, por distorcerem a percepção dos eleitores que acabam acreditando na capacidade técnica e administrativa de pessoas que possuem apenas treinamento retórico.
Quando escolhemos um governante, quais características estamos avaliando? Sua capacidade de formular políticas consistentes? Sua integridade? O que já fez? Ou a maneira como seus discursos despertam nossas emoções e reforçam nossas convicções? A esmagadora maioria dos eleitores não conhece e nem procura conhecer os projetos de governo dos candidatos, e mesmo que conhecessem, a maioria não tem capacidade técnica e analítica para comparar e julgar. Os critérios adotados para escolher um candidato são gravemente inadequados, e isso torna a democracia um sistema extremamente frágil, perigoso e que o próprio nome está errado.
Não existe democracia real no mundo.
O que existem são sistemas rotulados como “democráticos”, mas são na verdade oligarquias e plutocracias. O povo não decide nada, na verdade. O povo apenas faz aquilo que pequenos grupos poderosos manipulam o povo para pensar e fazer.
Em um cenário de polarização, alguns políticos podem explorar nossa necessidade de pertencimento, transformando o apoio político em uma questão de identidade. Já não basta concordar com as ideias de um candidato: é preciso defender o grupo, rejeitar seus adversários e, muitas vezes, ignorar as falhas daqueles que consideramos nossos aliados. O efeito manada encontra terreno fértil nesse processo, quando seguimos os demais não porque examinamos as evidências, mas porque queremos fazer parte de algo.
Entretanto, política não é futebol. Não escolhemos um time para torcer independentemente de seu desempenho. Escolhemos representantes que tomarão decisões capazes de afetar a vida de toda a sociedade. Por isso, antes de votar, devemos nos perguntar: o que essa pessoa já fez? Cumpriu suas promessas? Quais resultados alcançou? Suas propostas são consistentes?
A popularidade não comprova competência, assim como pertencer ao grupo com o qual nos identificamos não torna alguém automaticamente correto. Precisamos avaliar nossos aliados com o mesmo rigor com que avaliamos nossos adversários.
A questão, portanto, não é simplesmente se a maioria tem razão, mas se o povo é capaz de reconhecer quando suas escolhas são influenciadas pelo desejo de pertencer a um grupo, em vez de serem fundamentadas na análise crítica.
Quando você vota, escolhe alguém por suas ideias e realizações ou pela imagem que construiu?
É difícil votar em alguém quando nenhum dos candidatos é o mais capacitado para o cargo mais importante do país, mas até mesmo quando todas as alternativas são ruins, é importante selecionar a menos ruim. Perder um pé ou uma perna? Um dente ou a cabeça? Tomar um soco ou um tiro? São decisões difíceis porque as alternativas são todas ruins, mas em níveis diferentes.

